Manifesto

Logo pela manha, ao ler os jornais descobri que a manifestacao de hoje nao passou despercebida ‘a imprensa internacional.

Espero que a manifestacao de hoje seja mesmo Apartidaria, Laica e Pacifica. Que chame a atencao nao so’ do governo mas tambem do “outro”, da pessoa que vai ao lado ou do que ficou em casa a ver na televisao. Que promova troca de conhecimento e ideias, que desta manifestacao surgam novas empresas e projectos de pessoas que ali se conheceram. Que ao fim do dia se pense que afinal valeu a pena perder um sabado ‘a tarde.

Ainda nao decidi se vou ‘a manifestacao aqui ou nao, acho que vai ser uma decisao de ultima hora. Nao digo a 100% que vou porque estou bem como estou e onde estou e ir seria apenas um acto de solidariedade.De qualquer modo deixo o meu manifesto, que se aplica ‘a situacao que se vive neste momento em Portugal.

Deduzo que cada pessoa tenha a sua razao, mas estas sao as minhas:

– Contra quem aceita (e por vezes ate’ se oferece) para trabalhar sem remuneracao;

– Contra quem aceita e oferece trabalho nao remunerado;

– Contra as Ordens que promovem a existencia de estagios nao remunerados, alegando que e’ para o bem das pequenas empresas (quando muitas vezes estas sao as que oferecem remuneracao);

– Contra o Governo que permite situacoes de trabalho nao remunerado e ate’ aprova em assembleia que para um estagio ser remunerado tem de ter 12 meses (olha as Ordens a reduzir os estagios para 9 meses).

Sobre os pontos acima solucoes faceis passam simplesmente pela proibicao de qualquer tipo de oferta / procura de servicos sem remuneracao, sejam eles a 12 meses ou 12 horas. As Ordens deveriam ser tambem entidades reguladoras neste assunto, garantindo que os contratos de estagio incluam uma seccao sobre remuneracao (e com os numeros escritos). Afinal a Ordem e’ suposto estar do nosso lado e nao contra nos!

Se querem voluntariado ai a coisa e’ diferente e ha’ regras especificas para entidades sem fins lucrativos.

– Contra os falsos recibos verdes. Uma pessoa que se designe de “freelancer” (profissional liberal?) deve ser a unica a passar recibos verdes. E mesmo estes se devem basear num contrato escrito de prestacao de servicos a termo.

– Pelos contratos de trabalho. Porque quando uma pessoa trabalha numa empresa a tempo inteiro e sem termo certo, quando essa pessoa nao trabalha em mais lado nenhum isto significa que a pessoa e’ empregada dessa empresa e nao um freelancer. Como tal deve ter certos direitos, diferentes de quem trabalha por conta propria, como por exemplo seguranca social. Afinal e’ um investimento que a empresa faz nos seus empregados!

– Pela inclusao de uma clausula semelhante ‘a que existe aqui no Reino Unido sobre 3 meses de provacao (probation, traducao confirmada pelos dicionarios da Porto Editora), em que tanto a empresa como o empregado podem rescindir contrato sem implicacoes para a outra parte.

Alguem me explica por favor porque e’ que e’ assim tao dificil fazerem-se contratos de trabalho?

– Por uma mudanca social e de mentalidades sobre o trabalho temporario (mais conhecido por “Part-Time”) e pela implementacao deste junto das camadas mais jovens, tanto como trabalho de verao como durante o ano lectivo (e aqui as empresas teem de se adaptar ao calendario academico se querem funcionarios nestas condicoes).

Noutros paises onde vivi era normal para os meus colegas procurarem trabalhos de verao, muitas vezes relacionados com o curso que estavam a tirar. Para eles estranhos eramos nos (os do sul da Europa) que nunca tinham trabalhado. Curiosamente alguns destes trabalhos, especialmente quando designados por “Work Experience” (experiencia profissional?) teem uma remuneracao quase nula, pois o estudante procura isto para aprender como funcional a pratica profissional.

– Por uma mudanca legal que permita que um jovem ainda a estudar nao precise de se desagregar dos seus pais para poder term um trabalho temporario (sei la’, um limite maximo de remuneracao e de horas de trabalho).

Nunca me esquecerei de uma oferta de “Part time” que tive no ultimo ano na universidade. Procurava qualquer coisa que me permitisse distrair do trabalho da tese e que, ao mesmo tempo, me proporcinasse alguns trocos. Tive uma oferta de uma loja de aventura que consistia em 40 horas semanais em 4 dias (sexta a segunda) com uma remuneracao que era aproximadamente 2/3 do salario minimo.  Alguem me explica em que pais e’ que 40 horas por semana e’ part time?!?!?

– Por uma mudanca social e de mentalidades sobre o factor C. Ha’ uma certa diferenca entre ter Cunhas e ter Contactos. Nao vejo nada de mal em recomendar o trabalho de alguem. Se o trabalho de alguem e’ bom e se essa pessoa esta’ a procura de trabalho so’ vejo vantagens. Por aqui ate’ ha’ empresas que dao um pequeno bonus (a quem recomendou) quando o recomendado e’ contratado. Agora recomendar alguem porque e’ primo-do-amigo-do-tio, sem sequer olhar para o curriculo, sem saber se a pessoa se adequa ao perfil necessario, passa-la ‘a frente de outros que infelizmente nao conhecem o primo-do-amigo-do-tio, manter essa pessoa na empresa mesmo quando o seu trabalho nao e’ bom… ISSO E’ QUE NAO!!!

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3 thoughts on “Manifesto

  1. Olá “zebradaestepe”. Cheguei a este blog, através do blog “Mind this Gap – graduados abandonam Portugal” no qual partilhou parte do seu percurso até Londres,no ano de 2008.
    Primeiramente fiquei satisfeita, por o blog ainda existir, sendo aquele comentário de 2008, e em seguida gostei deste post dado que ontem estive presente na manifestação da geração á rasca.

    Sou recém “mestrada” em Arquitectura e Gestão Urbanística (isto é, tenho um mestrado integrado,do plano de estudos de bolonha), e vou iniciar a minha procura de estágio obrigatório para a ordem.

    De forma ainda um pouco leviana estou a pensar não fazer o estágio em Portugal; e tendo que escolher outro páis/cidade sinto-me inclinada para Londres, contudo desconheço por completo o panorama actual da procura de trabalho/estágio na área de arquitectura.

    Seria possível falarmos por e-mail? era um grande favor que me fazia, agradecia muito!

    Cumprimentos

    Anita V

    Anita.vinagre@gmail.com

  2. Boa Zebra,
    não te sabia tão filósofa.
    Bela síntese da crise, tiraste-me as palavras da boca.
    Concordo e subscrevo

    JB

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