Sobre o “livro sagrado”

Já ando há algum tempo para escrever mais umas linhas sobre a minha estadia em Goa, mas o tempo e a inspiracão faltaram. Na quarta-feira passada li a cronica do PVG no publico [que pode ser vista no blog do jaipuriano] e este post comecou a formar-se na minha cabeca.

 

Quando cheguei a Goa, 3 anos depois do Tsunami e da minha ultima viagem para lá,  achei que havia mais gente, mais carros, mais motas, mais confusao. No dia seguinte, e com o sol a mostrar o que a noite escondia, o lixo foi revelado como parte integrante da paisagem da costa goesa. De Baga a Candolim, para alem da enchente de turistas que chegou aos 100 000 num so’ dia, o que não era praia era lixeira. Mas lixeira a serio, daquelas com materia organica a putrificar, com larvas e ratazanas e que cheira mal.

Durante dias procuramos uma praia onde pudessemos dar um mergulho sem ser atacados pela constante de turistas, mendigos, vendedores, massagistas, jet skis, barcos com “bananas” e para-quedas e tudo o resto. Ate’ mesmo ali para os lados de Arambol, onde normalmente as enchentes não chegam por não haver hoteis, restaurantes ou lojas, a praia tinha mais de 20 espreguicadeiras cheias de bifes a virar lagosta. Para piorar ainda mais o cenario, a agua do mar, outrora transparente, estava turva, sem peixes nem carangueijos e com o aroma inconfundivel do petroleo. Ridiculas redes de suposta seguranca foram postas a 10 metros da rebentacao para os turistas estarem numa zona segura, sem jet skis ou barcos a arrancar-lhes pedacos do corpo. 10 metros para 100 000 gajos!

O S. estava possesso. Ver as praias onde na infancia corria livremente estarem tao cheias que nem há espaco para sentar na areia fizeram-no dizer que não voltaria a sair de Panaji naquelas ferias.

 

Por um lado o “livro sagrado” e’ uma ajuda para quem chega a um sitio que não conhece, onde não conhece ninguem e mal fala a lingua. Mas por outro lado todos os “paraisos” la’ descritos já deixaram de o ser há muito tempo, ou não fossem todos os viajantes seguir religiosamente o que esta’ escrito no livro. Quando chegei a Goa a primeira vez, sozinha e sem conhecer ninguem, deixei-me guiar pelo livro, especialmente no que diz respeito a restaurantes. Uns eram bons, outros nem por isso. Já tinha usado a versao escandinava do livro e não me tinha dado mal, mas deduzo que haja muito menos gente a viajar para a Noruega do que para Goa!

 

Voltando ‘a praia, eu adoro praia e ate’ gosto de me deitar ao sol a sentir o calor no corpo, especialmente depois de um mergulho no frio do Atlantico. Passo religiosamente os veroes na Figueira da Foz e nunca me tinha apercebido realmente da enchente de gente que esta’ tambem naquela praia ate’ mandar uma foto ao S. e ele ter respondido horrorizado “this place is bloody crowded! How do you like it?!?”

A resposta e’ simples. A grande diferenca entre a “minha” praia da FF e as praias de Goa e’ que, na FF, sempre foi assim. E sempre foi assim porque, para alem das pessoas em Portugal terem uma cultura de praia que não existe na India – onde o que se procura e’ sombra e pouca gente sabe nadar – na FF, e em muitas praias de Portugal, os veraneantes são Portugueses, não há mirones e, no caso da “minha” praia, as familias que estao na nossa fila de barracas e ate’ mesmo o banheiro (entenda-se, o dono as barracas) são as mesmas desde que os meus avos se casaram. Estar na praia na FF e’ como a vida numa aldeia. Todos se conhecem, usa-se as coisas uns do outros sem pedir licenca, as noticias correm depressa e se um estranho aparece e’ medido, analizado e interrogado e, caso não se enquadre no perfil da “aldeia” ou ninguem conheca ninguem que o conhece e’ quase que forcado a sair dali pelas brincadeiras das criancas, que são estrategicamente encaminhadas para onde o estranho assenta arraiais.

 

Gosto da FF, com as suas barracas de riscas e as familias do costume mas fora da “minha” praia prefiro uma praia vazia, tipo algumas onde fui na India e que, claro, não vou dizer o nome ou ate’ mesmo tipo aquela ali logo a seguir ao enforca-caes, onde o mar e’ tao agreste que pouca gente se aventura ‘a agua. Mas tambem duvido que o "livro sagrado" de Portugal mencione a FF. Acho que para quem o escreve,praia em Portugal e’ no Algarve. E eu pefiro que continue assim.

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